Por quê Marco Feliciano não deve ocupar a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias
No dia 7 de março deste ano a população brasileira assistiu, impotente, o deputado e pastor Marco Feliciano ser eleito, pela bancada evangélica, para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias do país. Esta comissão é responsável por lutar contra violações dos direitos humanos básicos dos cidadãos do nosso país e garantir o bem estar e a integração dos grupos de minorias étnicas, ideológicas e de gênero dentro do contexto social geral.
Por simples dedução, é possível concluir que o indivíduo a ocupar o cargo de presidir essa importante Comissão parlamentar deva carregar consigo, princípios e valores condizentes com o apreço pela defesa humanitária, humanista e igualitária. Isso como um valor MÍNIMO, básico para a coordenação das funções atribuídas ao cargo. Não estamos falando nem mesmo de um passado idôneo: estamos falando de competência para exercício das atribuições e postura compatível para tal.
O Sr. Marco Feliciano, pastor líder da igreja Ministério Tempo de Avivamento, demonstrou e continua a demonstrar por inúmeras vezes, em público, que não possui este perfil. São conhecidas as suas diversas declarações na internet e ao vivo a respeito das minorias do nosso país, como a população negra e a comunidade homossexual. Recentemente, declarou que a CDHM estava tomada por “Satanás” antes de seu ingresso. Também são notórias suas justificativas para cada uma dessas declarações, apoiado sempre na Bíblia e em obscurantismo de semântica. Feliciano não assume a responsabilidade por nenhuma de suas polêmicas e sempre deposita a “maldade” do discurso em más interpretações do público ou ainda em sua liberdade de crença religiosa e expressão.
Mesmo que consigamos encaixar essas claras demonstrações de preconceito e intolerância num formato cínico de “liberdade de expressão” (também encarado como “liberdade de opressão”), podemos dizer que nem chegam a ser estes os motivos mais marcantes para que Feliciano não seja a pessoa mais indicada ao cargo de presidente da CDHM. Sua presunção como pessoa do meio religioso, no atual contexto político do Brasil, lhe dá um passaporte de desvio livre para muitas acusações direcionadas à ele, mas não existem argumentos contra irresponsabilidades com a nação.
Feliciano responde atualmente por processos judiciais envolvendo crime de ódio (no caso, homofobia) e estelionato. Abertamente, Feliciano (como Malafaia) se posiciona como adversário da causa em favor da integração homossexual na sociedade, com direitos civis iguais, utilizando da instituição cristã da família como ferramenta de argumentação e impondo que este é o modelo crivado pela Constituição (um empréstimo bíblico que entorta o significado da laicidade do estado), além de outras posições espúrias como “vulgaridade”, “indecência” e “pouca vergonha” (referindo-se à demonstrações públicas de afeto).
Além disso, em sua igreja cuja missão aberta é a de realizar conversões (que é o significado de “avivamento”), Feliciano explora a ingenuidade e fragilidade de pessoas em declínio para torná-las dependentes de suas doutrinas, passando uma impressão de falsa liberdade (pois exige a dependência em uma fé) aos seus fiéis e utilizando dessa atmosfera para gerar lucros. Essa é uma prática comum em todas as igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade, uma filosofia de enriquecimento utilitarista que se baseia em versões de interpretações alteradas dos Evangélhos cristãos, divulgando a ilusão charlatã de que a doação de bens e dinheiro, de forma milagrosa, gera o aumento das riquezas do doador espontaneamente, como uma forma de reconhecimento divino da atitude.
É possível notar em seus cultos, assim como em todas as outras igrejas de mesma estirpe, um discurso inflamado, gritado e envolvido em paixão e frases de efeito, mas com pouco ou nenhum embasamento concreto. Este fator mostra que o apoio que Feliciano possui de seus fiéis e outros evangélicos não é baseado em racionalidade ou senso, mas no simples seguimento cego de pessoas que precisam de alguém para servir de guia (ainda que seja ao caminho errado). Em países de baixo investimento e preocupação com o setor da educação, essa é uma prática que se alastra cada vez mais, pois não há base na população para questionar o comportamento do líder.
Feliciano ainda incrementa a inviabilidade de sua prática como presidente da CDHM com improbidade administrativa, contratando para servir a cargos de confiança de seu gabinete, pastores e ministros de sua igreja, que recebem o salário de parlamentar mas não cumprem horário de trabalho e nem sequer frequentam sessão em Brasília, demonstrando, além do desrespeito pelas minorias, desrespeito também com o dinheiro público, afora a exposição da má fé.
Como se não bastasse, Feliciano conseguiu ainda coibir a participação popular nas sessões da Comissão e impedir o povo de expressar sua indignação, sob a alcova de “exercício da democracia” (democracia esta significando “governo pelo povo”). A pressão para que Feliciano renuncie ao cargo aumenta, enquanto este prossegue usando a onda contrária à sua permanência como uma forma de construir para si a imagem de um mártir em potencial, aguardando apenas que uma força maior o remova do cargo para carimbar seu nome como figura emblemática de uma luta contra a repressão (repressão esta que ocorre justamente contra outra repressão).
Estas posturas impróprias já são, evidentemente, motivos o bastante para demonstrar que uma pessoa nessa linha não é a mais indicada para ocupação desse cargo. Feliciano foi eleito dentro dos princípios da democracia, de fato, porém aproveitando-se de brechas em nosso sistema, que permite a união de grupos de interesse dentro de um ambiente que supostamente deveria ser o mais diversificado possível para representar com excelência toda a opinião popular. Não é o caso. Sabemos que existem verdadeiras máfias legislativas no poder, atualmente, comandando não de forma a representar o povo, mas de forma a representar apenas seus nichos sociais (evangélicos, ruralistas, empreiteiros, banqueiros, corporativistas, etc.).
Isso não pode ser chamado de democracia.